17/11/09

O diabólico Paganini

Os que assistiram à apresentação de Juan Mansilla sobre o Carnaval op. 9 de Schumann, lembrarão a súbita interrupção que Paganini, faz no meio da festa, atraindo todas as atenções com a sua magnética personalidade, fama e glamour. Na peça de Schumann a entrada de Paganini era apresentada como inoportuna e fora de lugar (uma consequência da fraca opinião de Robert pela música de Niccolò).
Para não deixar Paganini muito humilhado, pensei em traduzir este excelente post do jrtapia, que podem ler enquanto ouvem/vêm A Campanella, estudo de Liszt-PAganini tocado pelo Evgeny Kissin:


(Traduzido livremente do post "N. Paganini - F. Liszt: La campanella", no blog Audición y Apreciación musical):


A 9 de março de 1831, Niccolò Paganini dava seus primeiros concertos em Paris. Durante os anos anteriores muitas histórias corriam de boca em boca sobre este génio do violino, estranho e enervante. Quando, bem na década de quarenta, a sua figura misteriosa finalmente surgiu em Viena, Paris e Londres, para confirmar a legenda que lhe precedia, o efeito foi indescritível.

Um novo e demoníaco estilo performativo (estas é a palavra mais frequente em tudo o que foi escrito sobre Paganini), com um abandono selvagem, saltou dos seus dedos, acabando com a compostura de todos os que ouviram. O seu aspecto magro e murcho, e sua expressão selvagem eram os complementos aterradores da música que tocava. Não admira que lhe fossem atribuídos pactos com o diabo.

A sua paranóia chegou ao ponto de dar as partituras de suas obras para orquestra só para os ensaios, e recolhe-las imediatamente após o concerto, para evitar que fossem copiadas. Quase nada de sua produção foi publicada durante a sua vida.

Franz Liszt estava na platéia durante essa noite de 1831. Nunca se recuperou da experiência. "Durante duas semanas, a minha mente e minhas mãos eram as de um louco", ele escreveu para seu discípulo Pierre Wolff. "Prático quatro a cinco horas por dia ... Se eu não enlouquecer, você vai encontrar em mim um verdadeiro artista. Deus, quanto sofrimento e miséria, tanta agonia nessas quatro cordas!"

A magia pura de Paganini, o acrobata músico, deixou Liszt sem fôlego e o levou-o a desejar ser o Paganini do teclado. Mergulhou nos 24 Caprichos do italiano e, em 1838, apresentou a transcrição de cinco deles como Transcendental Etudes d'après Paganini. "Intocáveis", é o adjetivo mais suave que lhes foi atribuído. Intocáveis eram, de facto, pelo menos na sua primeira versão. Liszt realizou duas versões destes estudos, a primeira no mesmo ano de 1838, e a segunda e última em 1851, um ano antes de escrever uma das maiores obras já compostas para o piano: a Sonata em Si menor.

A versão 1851, que é a mais comum hoje, foi intitulada Grandes Études de Paganini. Além das cinco transcrições dos Caprichos, a série incluia uma transcrição do segundo movimento do Concerto para Violino em Si menor do genovês: La Campanella. A transcrição para piano é em Sol # menor.

Para os mais curiosos, este documentário fascinante sobre a figura de Paganini

"Paganini's Daemon : A Most Enduring Legend". Vale a pena!

Six Épigraphes Antigues - Debussy (II)

Aproveito esta mensagem para deixar a apresentação de slides do Luís Duarte, sobre esta peça de Debussy. Podem ouvir novamente a música e ler a partitura neste post publicado no dia 28/10/09.
Six Epigraphes Antiques_Debussy

16/11/09

Anthony Plog: Three miniatures for tuba and piano

Uma das sessões da próxima 6ª feira, dia 20 de Novembro, terá como objecto as Três Miniaturas para tuba e piano, do compositor norte-americano Anthony Plog.

Como sempre, deixo aqui a partitura e uma versão em vídeo da peça, para criar uma familiaridade com a música antes da apresentação.

Nota: como verão, na partitura estão desactivadas as funções de download e de impressão, por estar a música ainda sob direitos de autor. Enquanto ao vídeo, não será a versão ideal, particularmente no que toca à qualidade do som, mas será suficiente, espero, para formar uma ideia da música.


3 Miniatures PLOG


12/11/09

Robert Schumann - Carnaval op. 9

Amanhã, dia 13 de Novembro teremos uma apresentação sobre o Carnaval, op. 9 de Schumann, a cargo de Juan Mansilla. Carnaval foi escrita no período de 1834-1935. É subtitulada Scènes mignonnes sur quatre notes. Consiste de 22 peças para piano conectadas por um motivo recorrente.

As seções de Carnaval são as seguintes:

1. Préambule (Lá bemol)
2. Pierrot (Mi bemol)
3. Arlequin (Si bemol)
4. Valse noble (Si bemol)
5. Eusebius (Mi bemol; em alusão à calma, ao lado ponderado do compositor)
6. Florestan (Sol menor; em alusão ao lado furioso e impetuoso do compositor)
7. Coquette (Si bemol; em alusão ao criado galanteador da casa de Friedrich Wieck)
8. Réplique (Sol menor)
Sphinxes
9. Papillons (Si bemol)
10. A.S.C.H. - S.C.H.A: Lettres Dansantes (Mi bemol)
11. Chiarina (Dó menor; em alusão à Clara Wieck)
12. Chopin (Lá bemol)
13. Estrella (Fá menor; em alusão à Ernestine von Fricken)
14. Reconnaissance (Lá bemol)
15. Pantalon et Colombine (Fa menor)
16. Valse Allemande (Lá bemol; valsa alemã)
Intermezzo: Paganini (Fá menor; que é uma reprise da Valse Allemande)
17. Aveu (Fá menor)
18. Promenade (Ré bemol)
19. Pause (Lá bemol; conduzindo diretamente sem pausa para...
20. Marche des "Davidsbündler" contre les Philistins (Lá bemol, em que algumas citações de certas seções anteriores reaparecem transitoriamente).

Schumann - Carnaval, Op 9









09/11/09

KIVA, empréstimos que mudam vidas


Este post, excepcionalmente, não é sobre música. Mas é sobre harmonia.

KIVA é uma organização através da qual qualquer pessoa pode emprestar, de forma segura, uma pequena quantidade de dinheiro para ajudar outro ser humano a por em pé um negócio.

KIVA trabalha no terreno com inúmeras organizações locais que seleccionam os projectos.

Não é caridade. É um empréstimo. A KIVA tem uma percentagem de sucesso na devolução dos empréstimos próxima do 100%. É microcrédito, uma ideia com o potencial para mudar o mundo.
Quando recebes de volta a quantidade que emprestaste, podes ficar com o teu dinheiro ou escolher outra pessoa para ajudar.

Eu emprestei os meus primeiros $25, uns €19. Digo isso apenas para confirmar a seriedade da organização, que conta com um curriculum invejável.

Digo isso também para expressar a minha emoção por ter ajudado, de forma tão fácil, um agricultor de Tajikistão. Com as minhas moedas, atingiu o montante que precisava. Fiquei emocionado não por mim, mas por ver a enorme rede de pessoas que se juntam em KIVA para ajudar. O dinheiro movimentado globalmente é uma quantidade inacreditavelmente alta.

Se visitarem KIVA, ou lerem esta brochura, talvez sintam a força dessa multidão. Passem a palavra, se julgam apropriado!

KIVA Flier Carregar em FullScreen



Bach nesta 6ª


Nesta 6ª feira, 13 de Novembro, uma das apresentações em classe será dedicada à Fuga #18, em G# menor, do Cravo Bem Temperado (livro II). Deixo aqui um vídeo da Angela Hewitt, com a interpretação do Preludio e Fuga. A intérprete também fala brevemente sobre a música. Espero que achem interessante.

WTK II G#m.




06/11/09

Jazz Perspectives (revista)


Para os nossos caros colegas jazzistas/investigadores, e todos os interessados em geral, apresento esta publicação académica, JAZZ PERSPECTIVES, cujos números desde o ano 2007 podem ser consultados na base de dados EBSCO.

Até produziram um vídeo para aumentar a sua visibilidade.

Extraído, e livremente traduzido, do site da revista:

Como revista acadêmica com um prestigiado conselho editorial internacional de estudiosos de jazz, Jazz Perspectives proporciona um fórum amplo para promover o diálogo acadêmico disciplinar entre toda a comunidade acadêmica do jazz. Nossa missão é estimular o estudo internacional e a valorização do rico legado do jazz, e das suas muitas tangentes musicais e culturais, tanto do passado como do presente. A revista serve de ponte entre o jazz como música e o jazz como cultura partilhada e os estudos de jazz contemporâneo. Também, para promover uma perspectiva internacional mais abrangente da tradição do jazz e do seu legado. As páginas da revista são dedicadas a todos os aspectos - e todas as abordagens - do jazz. A revista é uma plataforma aberta para a investigação histórica, análise de músicas, e dos estudos culturais. Inclúi ainda análises e ensaios significativos sobre literatura recente e novas gravações e mídia.
www.tandf.co.uk/journals/jazz

We also loves you, Porgy!

Uma próxima apresentação no dia 20 de Novembro, irá introduzir alguma informação sobre a tradição jazzistica, nomeadamente o conceito de "canon" ou repertório dentro de uma actividade que é caracterizada pela transformação do material de origem através da prática da improvisação. Que define um standard? Existe tradição notacional? Que parâmetros musicais são transmitidos pela notação abreviada ou leadsheet? Quais são as estratégias de preparação dos músicos de jazz para o palco?
A apresentação de Paulo Gomes usará como foco e exemplo a maravilhosa I loves you Porgy de G. Gershwin, da ópera Porgy & Bess, obra que bem representa a confluência de estilos e tradições musicais - falo do jazz e a chamada "música clássica" - aparentemente separados por um abismo cultural, e no entanto, tão próximos nas suas fontes e matérias primas (o som, os acordes tríades, a tonalidade, a forma, etc.)

I Loves You Porgy

Deixo aqui dois vídeos que têm I loves you Porgy como ponto de partida.
Para abrir o apetite, e tirado de um concerto em directo de Keith Jarrett, o primeiro vídeo mostra, na minha opinião, a capacidade imensa de reelaboração deste músico extraordinário. A reharmonização surpreendente, que ilumina cantinhos da canção que julgávamos conhecer bem; o tratamento contrapuntístico, que nos leva a um mundo distante da canção original, e no entanto surge organica e naturalmente dela; a forma ingénua como ele usa a melodia da parte central como introdução...
(sim, já sei que a experiência de alguns ficará estragada pelas caretas e contorsões corporais de Jarrett; eu tento ouvir e não olhar muito para ele!)


O segundo, tirado do site de Dough Mackenzie, ilustra com ajuda da notação automática e a análise "em tempo real", a música que se va ouvindo.

05/11/09

O. MESSIAEN: Le Merle Noir

Olivier Messiaen é uma das figuras mais influentes na música do século XX. Embora a sua música não fosse bem recebida nos seus começos, acabou por ganhar o respeito internacional e conseguiu impor uma linguagem musical vincadamente pessoal, emocional e impregnada por uma religiosidade profunda. Esta linguagem é alimentada por diversas fontes , com um interesse na natureza que resulta evidente nos Oiseaux exotiques e no Catalogue d'Oiseaux. Paralelamente, desenvolveu uma forma de serialismo que foi diversamente interpretada. Le merle noir, para flauta e piano, foi escrita em 1951 como um morceau de concours para o Conservatório de Paris. A sua inspiração deriva do canto dos pássaros.


Uma próxima apresentação terá como objecto esta emblemática peça do repertório de flauta e piano. Proponho uma audição/leitura para aproveitarmos melhor a sessão (notem que a peça começa no minuto 0'44").



messiaen-merle-noir


Esta partitura está sob direitos de autor. A partitura é apenas apresentada como guia da audição. A descarga e impressão estão desactivados.

31/10/09

Rir com musicalidade

Literalmente, sem palavras, mas (espero) com muitos risos...





28/10/09

Six Épigraphes Antiques (C. Debussy)

Deixo aqui um convite para ouvir/ler esta bonita peça de Debussy, que será proximamente objecto de uma apresentação em classe.

Podem visualizar a partitura e ouvir cada um dos 6 Epigraphes numa janela separada de vídeo

Para ver a apresentação de slides utilizada na apresentação, fazer clic aqui

SCORE Debussy SixEpigraphesAntiques4hds











Debussy e Feux d'artifice


O primeiro volume dos Préludes foi composto apenas em dois meses (entre o início de Dezembro de 1909 e início de Fevereiro de 1910).

Feux d'artifice, o prelúdio com que Debussy conclui os seus dois volumes de Prelúdios, é notável, não tanto pelas suas inovações e efeitos de pirotecnia, como pelo carácter visionário e a sua antecipação dos estilos de composição do futuro. Feux d'artifice pode ser descrito como uma composição totalmente atonal, porque a sua estrutura harmónica carece de qualquer ponto de referência tonal coerente. A impressão de novidade é ainda reforçada pelo carácter fragmentado de sua forma e material temático.

Apresento neste vídeo uma breve análise e performance de Feux d'artifice. Podem visualizar paralelamente a partitura (é preciso descer até a página 66 do Cahier II completo).